Coca-Cola versus Heineken ganha mais um capítulo

O sistema Coca-Cola Brasil aciona Heineken pela compra da Brasil Kirin. O objetivo é reverter a compra e pleitear indenização.


Após a penosa e longa novela em que o Sistema Coca-Cola Brasil garantiu por meio de tribunal arbitral e decisão judicial a manutenção do contrato de distribuição exclusiva das cervejas produzidas pela CKBR (subsidiária da Heineken) até 2022, o distribuidor brasileiro não desiste de tornar a já tensa relação com seu fornecedor de cervejas, um grande imbróglio judicial.

Neste novo capitulo, o Sistema Coca-Cola Brasil entrou mais uma vez na justiça, buscando indenização e dissolução da venda da Brasil Kirin para a Heineken. A alegação, bastante nebulosa diga-se de passagem, é que eles possuem contrato de exclusividade de distribuição com a CKBR, e que a Heineken utilizou de uma empresa apenas existente no papel (devido aos créditos fiscais que possuía) para a aquisição das operações da japonesa, no caso a Cervejaria Bavária, que já havia sido parte da CKBR, mas que anteriormente a aquisição da Brasil Kirin, havia sido desmembrada da subsidiária primária da holandesa. A Coca-Cola alega que, devido a este movimento operacional, a empresa resultante da união da Cervejaria Bavária com a Brasil Kirin, a HNK, acabou excluída das obrigações contratuais da CKBR com o sistema distribuidor.


A fragilidade do questionamento

A relação do Sistema Coca-Cola Brasil com a Heineken se tornou tumultuada após a engarrafadora e distribuidora de refrigerantes ter desistido de realizar a aquisição conjunta da Brasil Kirin, momento cujo qual a holandesa não desistiu de ampliar sua participação no país, e optou por adquirir sozinha as operações da japonesa, uma vez que há alguns anos havia adquirido a integralidade da CKBR, anteriormente pertencente ao Sistema Coca-Cola, e enfim pretendia fazer frente a Ambev, líder incontestável no país.


A Heineken, com razão, alega que o Sistema Coca-Cola não quis fazer parte do projeto de ampliação das operações cervejeiras no Brasil, e já havia manifestado desinteresse no segmento de bebidas alcoólicas, portanto buscando uma operação mais saudável e focada, a holandesa naturalmente se movimentou para trabalhar sozinha neste segmento, aproveitando a infra-estrutura herdada da aquisição da Brasil Kirin. Então por isto, a cervejeira buscou encerrar as operações conjuntas de distribuição com o Sistema Coca-Cola Brasil, com a qual tem contrato até 2022, todavia não logrou êxito neste movimento, e a Coca-Cola permaneceu com os direitos de distribuição da CKBR.

O Sistema Coca-Cola também se esqueceu dos princípios de propriedade, posse e direito, haja vista que, uma vez que deixou de ser acionista da CKBR, não deve interferir ou questionar movimentos administrativos realizados pela Heineken em sua propriedade, portanto, não cabe qualquer questionamento quanto ao desmembramento da Cervejaria Bavaria da CKBR, com venda da operação para a matriz holandesa. É um direito legal da Heineken como grupo, ter diversas empresas no mesmo segmento, sem qualquer ligação intrínseca e direta entre elas, tal qual faz o Sistema Coca-Cola com suas divisões de bebidas não gaseificadas (Leão Alimentos) e bebidas lácteas (Verdes Campos), que são operadas separadamente das operações de produção e distribuição das bebidas gaseificadas.

Outro ponto que o Sistema Coca-Cola alega é que teve perdas com o fato da Heineken ter duas operações cervejeiras no país, todavia, a engarrafadora e distribuidora de refrigerantes não teve qualquer diminuição de participação das cervejas do portfólio CKBR, mas sim um aumento, onde, não somente foram mantidas as linhas Kaiser e Bavaria, originais da CKBR, bem como a marca principal Heineken, e as marcas premium Sol e Amstel, todas forte investimento na mídia e ampliação de vendas, enquanto a HNK permaneceu apenas com as marcas oriundas da Brasil Kirin: as premiuns Baden Baden, Devassa, Eisenbahn, e as populares Schin, Glacial e No Grau (especial do Nordeste). Em ambos os portfólios, a Heineken retirou marcas e linhas, de forma a otimizar a fabricação nacional, e disponibilizar maior capacidade fabril a marca Heineken , marca líder no seu portfólio (que tem produção controlada), e sob distribuição do Sistema Coca-Cola Brasil.


O 'X' da questão

Ao que parece, o sistema Coca-Cola se arrependeu de sair do segmento de bebidas alcoólicas, movimento percebido com o lançamento recente de drinks com a sua tradicional marca de tônicas Schweppes, e quer voltar a ser fabricante de cervejas. E para tal, pretende desmembrar sua atual parceira e também concorrente, buscando, caso logre êxito nesta movimentação judicial absurda e descabida (afinal, no Brasil, tudo pode acontecer), provavelmente adquirir a HNK, dividindo a operação de sua concorrente Heineken pela metade.

Certamente a Justiça Brasileira não dará procedência a esse descalabro por parte do sistema Coca-Cola Brasil, em especial por afetar negativamente o ambiente concorrencial brasileiro, uma vez que a combinação de HNK e CKBR (como Heineken Brasil), assim como o Grupo Petrópolis são os únicos capazes de fazer concorrência a Ambev, e um eventual desmembramento da holandesa iria prejudicar severamente o ambiente concorrencial.

Se há real interesse por parte do Sistema Coca-Cola Brasil em voltar a fazer parte do mercado cervejeiro, que faça a aquisição conjunta de outros relevantes expoentes, como a Cervejaria Petrópolis, Cervejaria Theresópolis, Cervejaria Cidade Imperial, Cervejaria Cerpa, INAB Cervejaria Colônia, Santa Mate e outros, que são outros grandes players altamente capilarizados e com alta capacidade fabril que, combinados, podem formar uma nova e significativa terceira força nacional, com marcas de alta relevância, podendo fazer frente a Ambev e Heineken, ainda mais se fizer a aquisição de marcas de alto padrão fortemente expressivas no mercado premium, como Dado Bier, Coruja, Backer e etc. Oportunidades de consolidação não faltam.

Constata-se que Sistema Coca-Cola Brasil terá que aprender a viver sem a Heineken e terá que conseguir caminhar sozinho com as próprias pernas no segmento cervejeiro, e terá que investir com vontade nesse setor. Sabemos que recursos não faltam a empresa para tal feito.


Matéria: Dimithri Vargas
Imagens: Commons Wikimedia
 

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